quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Do dia que resolvi dar luz à iara...





É como um recém-nascido que revolta-se com a mãe (por essa ter sofrido e oferecido um parto doloroso), achar que alguém que tentou te fazer crescer dizendo verdades duras é seu inimigo.

- E foi tentando te dar a luz minha filha.... E foi tentando te dar a luz!

- Mas estava quente, meu alimento estava pronto. Eu saí tive que chorar. Não pude abrir os olhos por um tempo enorme de tanta luz sob a qual você me submeteu. Era melhor não ver nada, assim como era no útero. Como você pode ser tão cruel e dizer que foi por amor? Falsa!

- Um dia minha filha, talvez você entenda que era o único caminho. Eu não queria ter sido a escolhida para te fazer atravessar por passagem tão estreita, mas no fundo eu esperava que você estivesse madura. O tempo não podia mais esperar, os nove meses já estavam completos.

- Eu só não queria ter sido exposta. Eu estava protegida e isso me bastava.

- Todos sabiam. A natureza que te foi expondo mês a mês. Não dava mais pra empurrar com a barriga, afinal ela estava enorme.

- Mas ninguém nunca me expulsou de dentro do ventre.

- E quem você acha que me ajudou na sua concepção? Do jeito que você fala parece que eu te enjeitei sozinha. Você foi inseminada meu amor. Mas é claro que ninguém lembra de quem pega a seringa, de quem abre minhas pernas, de quem planeja o dia mais fecundo... Todos se esconderam na hora mais puta, que é a do “pariu”. Eu / não sou / seu crápula!

- Então estão todos errados!!!

- Essa história só tem dois erros: Quando os os médicos resolveram usar a ciência pra te explicar que a gente só queria te fazer desenvolver já era tarde...

-Você os convenceu a me partejar...

- Parir nada tem a ver com partir! Era pra você ser amamentada, sustentada pela mão até aprender a andar, até encontrar o eixo. Você não percebe que foi você que escolheu ser órfã?

- Até hoje eu não sei porque você resolveu me segurar no colo depois de tanta dor...Sabe o que eu acho? Que você se arrependeu do tremendo erro...

- Como eu te disse só existem dois erros: a ciência tardia … e eu ter achado que você aguentaria. Sobreviveu? Sim! Mas não entendeu nada, não absorveu nada. Eu quis te dar a luz e ofusquei seus olhos. Com meu amor de mãe eu ainda rezo pra que você brote em outros ventres. Mas de mim você nasceu aborto!


ps.: Significados para Luz:
luzes
s. f. pl.
11. Saber, ciência, instrução, conhecimentos.
dar à luzparir, publicar.
luz verdeautorização para fazer algo.
vir à luznascer; aparecer.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Mártir - pesca do lado que não tinha!



Sempre encaixei seus olhos numa canção que talvez seja um terço da grandiosidade da sua música:

"De onde é que vem esses olhos tão tristes?
(...) De onde é que salta essa voz tão risonha?"

Eu tinha vontade de guardar aquela alma num lugar onde ela fosse menos
solitária... Podia ser num abraço amigo! Podia ter sido...

Era engraçado ver como se manifestava aquela falta. Olhando de cima, só se via
ciscando pra cá, arranjando um milho acolá, cacarejando uma espiga aqui...
Mas por que, se em casa a dispensa era tão rica?

Todos pensam: Que horror! Se porta como galinhas!
Eu também já esbravejei contra esse jeito que nunca sacia. Mas com seres humanos não dá pra ser maniqueísta!Procurei o outro lado que eu ainda não via...

Como podia caber maldade naquela música tão sublime? Não podia ser verdade! Não naquelas notas, não naquela melodia triste e encantadora...

Foi então que eu entendi que seu outro lado não exite! O lado galinhas é o mesmo lado de melodia sublime. Você é pra sempre metade! Carente de algum afeto bonito, mas que nunca existirá por muito mais que 48 horas.

Entendo! Embora não sinta e não concorde.

Eu tão indivídua, você tão incompleto. E mesmo assim nos encontramos! Talvez até por isso nos encontramos. Dois esbarrões que juntos não somariam um minuto...mas que lateja de quando em vez!

Sua insaciedade que me faz diluir os poucos segundos de presença eternizada.

- Encantada! Mas florida demais pra tua malícia.


Jeito de Mato

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Eu te conheço, você não se conhece!

Eu sempre desisto!
Descarada e cheia de razão, não faço a mínima questão
em insistir no que me dói, no que me desafia...quero mais é que se F-O-D-A!
E viro a cara, faço bico, faço birra...Fico em casa só de pirraça ou de preguiça.
Mando tomar no cú o que não me for facilitar.

Pobre Eu! Mal sei de mim.

Eis que a vida me desarma como nunca confiei que ela fosse capaz!
A pelica da luva é tão delicada que me sinto acarinhada, mas na verdade fui esbofeteada.
Parece que eu perdi a força e ela acreditou em mim.
A verdade é que eu fugi de mim ela me pôs de volta na força.

Então a vida ri do meu esforço em achar que essa birra sou eu decidindo meu caminho.
Porque a gente sabe que isso é só medinho.
E antes mesmo de eu poder pegar fôlego pra proferir o N do não...
Lá está ela me rumando pra onde eu quero estar, mas tenho receio de não aguentar.

Assim a vida segue meu caminho, tendo só uma frase pra me dizer:
Eu te conheço, você não se conhece!